Rádio Hinos Inspirados


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

AS OBRAS DA CARNE






A liberdade cristã não libera o crente andar segundo o curso desse mundo, mas para viver e se conduzir sob a vontade, direção e influência do Espírito Santo”.


 





Gl 5.19-21 (ARA, ARC, ACF, ARM, Católica)

“Porque as obras da carne são manifestas, as quais são:
1. prostituição (adultério, fornicação),
2. impureza,
3. lascívia (libertinagem),
4. idolatria,
5. feitiçarias,
6. inimizades (ódio),
7. porfias (contendas, discórdia),
8. emulações (ciúmes),
9. iras,
10. pelejas (discórdias, rivalidade),
11. dissensões (divisão),
12. heresias (facções, partidos, sectarismo),
13. invejas,
14. homicídios (TR),
15. bebedices (bebedeira),
16. glutonarias (orgias)
e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus.”



Por não haver cristão isento de pecado, pois isso seria perfeição absoluta (1Jo 1.8,9), Deus concedeu-nos condição suficiente para vencermos as tentações: viver no Espírito Santo. Viver no Espírito é subjugar a carne e isso gera o conflito interno, a luta da carne contra o espírito. Nenhum trecho da Bíblia apresenta um mais nítido contraste entre o modo de vida do crente cheio do Espírito e aquele controlado pela natureza humana pecaminosa do que Gl 5.16-26. Paulo não somente examina a diferença geral do modo de vida desses dois tipos de crentes, ao enfatizar que o Espírito e a carne estão em conflito entre si, mas também inclui uma lista específica tanto das obras da carne, como do fruto do Espírito.

A oposição do Espírito à carne é tamanha que resulta em proteção vital para o crente que anda pelo Espírito. Ele não precisa fazer o que ele por si mesmo faz. Não é que ele seja incapaz de seguir os próprios desejos, mas que ele não tem o poder de segui-los quando são contrários à vontade de Deus. Isto significa que, quando o crente anda pelo Espírito, os desejos do Espírito substituem os desejos da carne.

Hoje, o crente em Cristo não enfrenta a mesma ameaça da escravidão à lei, mas é muito real a rígida alternativa entre viver debaixo do Espírito e viver debaixo do pecado. Viver debaixo do Espírito é a única proteção contra viver debaixo do pecado.

 
OBRAS DA CARNE.
“Carne” (gr. sarx) é a natureza pecaminosa com seus desejos corruptos, a qual continua no cristão após a sua conversão, sendo seu inimigo mortal (Rm 8.6-8,13; Gl 5.17,21). Possui vários significados na Bíblia, principalmente nas epístolas. Pode significar fraqueza física (Gl 4.13), o corpo, o ser humano (Rm 1.3), o pecado (Gl 5.24), os desejos pecaminosos (Rm 8.8). O contexto quando corretamente interpretado determina o significado da palavra. Aqui significa o conjunto de impulsos pecaminosos que dominam o homem natural. Aqueles que praticam as obras da carne não poderão herdar o reino de Deus (Gl 5.21). Por isso, essa natureza carnal pecaminosa precisa ser resistida e mortificada numa guerra espiritual contínua, que o crente trava através do poder do Espírito Santo (Rm 8.4-14; Gl 5.17). As obras da carne (Gl 5.19-21) incluem:


1. PECADOS DE ORDEM MORAL
 
A sociedade greco-romana era dada à licenciosidade. Quem visita ainda hoje a Grécia e a Turquia, parte do mundo greco-romano do século I, pode ver uma pálida amostragem do que seria a sociedade da época, a começar pelo ritual religioso deles. Talvez isso justifique o fato de a Bíblia começar a lista com os pecados da licenciosidade. Hoje a tendência é inverter os valores morais. À medida que o tempo avança a sociedade vai se tornando mais permissiva quanto ao pecado e os homens vão se distanciando cada vez mais de Deus.
 

1. “Prostituição” (gr. pornéia), i.e., imoralidade sexual de todas as formas. Isto inclui, também, gostar de quadros, filmes ou publicações pornográficos (cf. Mt 5.32; 19.9; At 15.20,29; 21.25; 1Co 5.1). Os termos moichéia (adultério) e pornéia são traduzidos por um só em português: prostituição.
 
2. “Impureza” (gr. akatharsia), i.e., pecados sexuais, atos pecaminosos e vícios, inclusive maus pensamentos e desejos do coração (Ef 5.3; Cl 3.5). William Barclay diz que o termo era usado para descrever o pus de uma ferida não desinfetada.
 
3. “Lascívia” (gr. aselgeia), i.e., sensualidade. É a pessoa seguir suas próprias paixões e maus desejos a ponto de perder a vergonha e a decência (2Co 12.21). Aselgeia refere-se à devassidão, um apetite libertino e desavergonhado. Trata-se daqueles atos indecentes que chocam o público. Um homem entregue à lascívia não conhece freio algum, só pensa no seu prazer e já não se importa com o que pensam as pessoas.

William Barclay relaciona significativamente estes três termos: “Porneia indica pecado em área específica da vida: a área das relações sexuais; Akatharsia indica profanação geral da personalidade inteira, manchando toda esfera da vida; Aselgeia indica amor ao pecado tão despreocupado e tão audacioso que a pessoa deixa de se preocupar com o que Deus ou os homens pensam de suas ações”.


2. PECADOS DE ORDEM RELIGIOSA
 
4. “Idolatria” (gr. eidololatria), i.e., a adoração de espíritos, pessoas ou ídolos, e também a confiança numa pessoa, instituição ou objeto como se tivesse autoridade igual ou maior que Deus e sua Palavra (Cl 3.5). O mal básico na idolatria é que a criação é adorada no lugar do Criador (cf. Rm 1.19-23). Neste sentido, “idolatria” é igualmente um problema em nossos dias, embora esteja revestido com requinte. “Sempre que qualquer coisa no mundo passa a assumir o principal lugar em nosso coração, mente e propósito, então essa coisa tornou-se ídolo, pois usurpou o lugar que pertence a Deus.”
 
5. “Feitiçarias” (gr. pharmakeia), i.e., espiritismo, magia negra, adoração de demônios e o uso de drogas e outros materiais, na prática da feitiçaria (Êx 7.11,22; 8.18; Ap 9.21; 18.23). A palavra no original aqui, significa “magia”, além de “feitiçaria”. O termo no original envolve a manipulação de drogas na medicina, de onde vem a palavra “farmácia”, mas os mágicos e bruxos manipulavam os efeitos alucinógenos dessas drogas nos rituais de magia (Ap 21.8; 22.15). Hoje a feitiçaria envolve toda a forma de ocultismo.


3. PECADOS DE ORDEM SOCIAL
 
Há uma lista quase que interminável desses pecados (ver Rm 1.29-31), O apóstolo apresenta aqui nove desses pecados: “inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios...”. A presença de “heresias” nesta lista é que a palavra grega hairesis pode se aplicar no âmbito religioso ou social, significando “escolha filosófica, facção, dissensão” (1Co 11.19). Também tem o sentido de erro doutrinário (2Pe 2.2) ou seita (At 5.17; 23.5).
 
6. “Inimizades” (gr. echthra), i.e., intenções e ações fortemente hostis; antipatia e inimizade extremas. Trata-se daquele sentimento hostil nutrido por longo tempo, que se enraíza no coração.
 
7. “Porfias” (gr. eris), i.e., brigas, oposição, luta por superioridade (Rm 1.29; 1Co 1.11; 3.3). Paulo deixa claro que “brigas”, atitude tão característica no mundo pagão (cf. Rm 1.29), estavam diametralmente opostas à unidade que Deus planejou para a comunhão cristã. Por isso, condenou com veemência seu aparecimento na igreja. É a rivalidade por recompensa.
 
8. “Emulações” (gr. zelos), i.e., ressentimento, inveja amarga do sucesso dos outros (Rm 13.13; 1Co 3.3). Paulo o usa com o sentido de zelo, entusiasmo ou ardor na busca de uma causa ou tarefa. No grego secular, zelos descrevia uma virtude nobre (cf. 2Co 11.2), fornecendo ímpeto para emular aquilo que era admirado nas realizações ou posses dos outros. Porém, tal concentração na felicidade dos outros pode se degenerar em ressentimento invejoso, tornando zelos semelhante à inveja (phthanos, v 21). Assim, emulação (zelos) não é intrinsecamente mal. Quando a pessoa depara o sucesso e realizações dos outros, ela pode se inspirar e escalar novas alturas, ou se ressentir dessa felicidade com ciúme amargo. Este é o segundo significado da palavra grega zelos encontrada no Novo Testamento. Significa “ciúme” com conotação má. O significado nesta passagem é, obviamente, “ciúme”.
 
9. “Iras” (gr. thumos), i.e., ira ou fúria explosiva que irrompe através de palavras e ações violentas (Cl 3.8). Uma das “obras da carne” mais complexa é ira (v 20, thymoi). Na Septuaginta, tem “extensa gama de significados: ira humana e ira divina, ira diabólica e ira bestial, ira nobre e ira destrutiva”. Paulo e outros escritores do Novo Testamento usam o termo primariamente com referência a homens. Refletindo uma distinção encontrada no grego secular, thymos enfatiza os aspectos violentos e breves da ira, ou seja, “temperamento explosivo, ou raiva instantânea”; é diferente da ira mais crônica (orge). Na realidade, thymos é “raiva” que é verdadeira “loucura temporária”, refletindo hostilidade pecaminosa que é nitidamente um mecanismo de defesa da carne. Já se disse que uma personalidade sensata necessita de moderação, equilíbrio, mas não há dúvida de que raiva tem conotações boas e más. Mas no Novo Testamento, o temperamento útil sempre é orge e nunca thymos. “O termo grego thymos é algo que deve ser banido da vida cristã. [...] O Novo Testamento é bastante claro em afirmar que semelhante exibição de temperamento é manifestação pecaminosa que o indivíduo ainda está no domínio de sua natureza inferior (carne).”
 
10. “Pelejas” (gr. eritheia), i.e., ambição egoísta e a cobiça do poder (2Co 12.20; Fp 1.16,17). Não deve ser derivada de éris, briga, mas de érithos, “trabalhador assalariado”, e tornou-se uma palavra usada para xingar o procedimento ganancioso e vil.
 
11. “Dissensões” (gr. dichostasia), i.e., introduzir ensinos cismáticos na congregação sem qualquer respaldo na Palavra de Deus (Rm 16.17). No grego original é “dichostasiai”, ou seja, “sedições”, “levantes”. Podiam ser de natureza política, social ou particular. Paulo quer indicar aqui as várias querelas entre irmãos, que ameaçavam a unidade do corpo de Cristo. (Comparar com o trecho de Rm 16.17, onde Paulo nos adverte contra as dissensões, que são provocadas por aqueles que servem à si mesmos, e não a Cristo Jesus).
 
12. “Heresias” (gr. hairesis), i.e., grupos divididos dentro da congregação, formando conluios egoístas que destroem a unidade da igreja (1Co 11.19). Não tem intrinsecamente uma conotação ruim. Contudo, Paulo usa o termo com referência aos elementos divisores na igreja que se formaram em grupos ou seitas. Tais grupos exclusivos (ou panelinhas) fragmentaram a igreja e “uma igreja fragmentada não é igreja!”. E mais que natural que estes grupos exclusivos se considerassem certos e todos os outros errados. Paulo condenou semelhante sectarismo, taxando-os de “obras da carne”.
 
13. “Invejas” (gr. fthonos), i.e., antipatia ressentida contra outra pessoa que possui algo que não temos e queremos. A palavra grega fthonoi, traduzida por “invejas”, vai além dos ciúmes. E o espírito que deseja não somente as coisas que pertencem aos outros, mas se entristece pelo fato de outras pessoas possuírem essas coisas. Os invejosos não apenas desejam o que pertence aos outros, mas anseiam que os outros sofram por perder essas coisas. Trata-se das pessoas que se alegram com a tristeza dos outros. Não é tanto o desejo de ter as coisas, mas o desejo de que os outros as percam. E entristecer-se por algum bem alheio. Eurípedes chamou a inveja de “a maior enfermidade entre os homens”.
 
14. “Homicídios” (gr. phonos), i.e., matar o próximo por perversidade, assassinar (Êx 20.13). A tradução do termo phonos na Bíblia de Almeida está embutida na tradução de methe, a seguir, por tratar-se de práticas conexas.


4. PECADOS DE ORDEM PESSOAL
 
Esses dois últimos pecados têm a ver com a intemperança ou o abuso e a falta de domínio próprio na área de comida e bebida.

15. “Bebedices” (gr. methe), i.e., descontrole das faculdades físicas e mentais por meio de bebida embriagante. A palavra grega methai, “bebedices”, refere-se à pessoa que se embriaga na busca de sensualidade ou prazer. No mundo antigo tratava-se de um vício comum. Os gregos bebiam mais vinho do que leite. Até as crianças bebiam vinho. A embriaguez, contudo, transforma homens em feras.
Há um comentário judaico interessante sobre Noé e sua embriaguez após o dilúvio: “Quando Noé plantou a vinha, o Satán quis associar-se a este trabalho e Noé consentiu. O astuto demônio trouxe um cordeiro, um leão, um porco e um macaco, imolou-os e regou com sangue a terra da planta. O caráter dos animais sacrificados não tardou a manifestar-se em Noé e com seus descendentes depois de ingerida a bebida. Bebendo um copo, o homem é mano com um cordeiro, no segundo copo, crê-se forte como um leão, declarando que não há igual a ele no mundo. Após o terceiro copo, deita-se como um porco e, continuando a beber, não tarda a praticar insanidades e palhaçadas como o símio (Midrash Tanchumá, Noé 13)”.

16. “Glutonarias” (gr. komos), i.e., diversões, festas com comida e bebida de modo extravagante e desenfreado, envolvendo drogas, sexo e coisas semelhantes. A palavra pode ser traduzida também por “orgias”. O termo tem uma história interessante. Komos era um grupo de amigos que acompanhavam o vencedor nos jogos depois de sua vitória. Dançavam, riam e cantavam suas canções. Também descreve os grupos de devotos de Baco, o deus do vinho. O termo significa rebeldia não refreada e desgovernada. E diversão que se degenera em licenciosidade.

 
As palavras finais de Paulo sobre as obras da carne são severas e enérgicas: QUEM SE DIZ crente em Jesus E PARTICIPA dessas atividades iníquas EXCLUI-SE do reino de Deus, i.e., NÃO TERÁ SALVAÇÃO (Gl 5.21; 1Co 6.9,10).



Em Cristo,
Ir. Márcio da Cruz

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