Rádio Hinos Inspirados


segunda-feira, 19 de julho de 2021

O CONTEXTO E A RESPONSABILIDADE TEXTUAL



Criou-se no Brasil uma cultura estranhíssima à Bíblia, que busca de forma errada, ensinar os filhos nos caminhos do Senhor. Ensinar é bíblico (Pv 22.6; Ef 6.4), mas o resultado efetivo dessa orientação divina e bíblica só será possível se o real sentido das Escrituras for transmitido. Do contrário, engrossaremos os números de pessoas doentes e vivendo a sua própria vontade, longe da égide do Senhor e de Sua Palavra.

São crianças (no sentido restrito mesmo!) que por N motivos, os pais procuram fazer delas ministros e pregadores da Palavra de Deus (alguns até levam a alcunha de missionários, profetas...), mesmo que para isso, a etapa natural da vida dos infantes tenha que ser sacrificada em prol de “um bem maior e mais elevado”.

Mas o que será que a Bíblia diz sobre isso? Ela cala, é explícita sobre o assunto ou revela indícios do sim ou não do fato em questão?

Muitos usam de forma exaustiva o ocorrido entre o SENHOR e Jeremias quando em seu chamamento para o ministério profético (Jr 1.4-10) e também o ocorrido com Jesus, quando Ele ficou em Jerusalém após a Páscoa e foi encontrado por seus pais no templo, assentado, ouvindo e interrogando os doutores da Lei. Lc 2.41-52

Mas – e infelizmente – o que temos visto não é o operar efetivo do Espírito do Senhor, mas cópias quase que idênticas do que vemos por aí em alguns “pregadores”. São fruto de pura osmose, onde o que ocorre não passa de imitação. Seja no falar, no vestir, no agir, nos jargões...

Dúvidas que pairam e precisam de honestas respostas:

- Se o apoio a isso é o fato de Jeremias ter dito que era uma criança, esses pais irresponsáveis sabem o que quer dizer criança dentro do contexto em que foi dito?

- Se o apoio a isso é o fato de Jesus com doze anos estar discutindo a Lei com os doutores, por que os pregadores insistem em ser cópias de adultos e não eles mesmos como Jesus o fora, sem imitar ninguém? Será que esses pais irresponsáveis sabem o que quer dizer um menino com 12 anos dentro do contexto em que foi registrado?

Ensinemos sim as crianças, nossos filhos no e para o temor do Senhor, mas dentro do mundo delas, não do nosso. Que elas aproveitem a fase própria delas e não a nossa.

E que aprendamos de uma vez por todas que quem ESCOLHE, SEPARA e DESIGNA alguém para o ofício que for na obra de Deus é Ele próprio, não os pais ou quem quer que seja. Aceitemos isso CALADOS e SUBMISSOS!!!

Que o SENHOR nos dê sabedoria para vivermos nesse mundo que cada dia mais se afunda em achismos e conveniências egoístas sob pretexto de piedade e/ou espiritualidade!!!

No Criador de todas as coisas,
Ir. Márcio da Cruz



Sobre isso na vida de Jeremias, vamos ver o que nos mostram alguns comentaristas em suas obras.

1. “Jeremias tentou fugir da obediência ao chamado de Deus em sua vida protestando: “eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (na'ar, Jr 1.6). A mocidade, pensava ele, desqualificava-o para o serviço público, especialmente em uma sociedade que dava preferência à sagacidade dos anciões.” Victor Hamilton - Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do AT vol. 03

2. Podia ser um militar, um escudeiro, um servo, homem casadouro enquanto solteiro. William L. Holladay - LÉXICO Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento

3. Sobre Jr 1.6, a Bíblia Shedd em sua nota de rodapé diz: “Criança, heb na'ar, que pode significar qualquer pessoa desde três meses até quarenta anos de idade. Jeremias tinha cerca de 24 anos quando iniciou seu ministério profético. A LXX traduz por "demasiado novo".”


Sobre isso na vida de Jesus, vamos ver o que também nos mostram alguns comentaristas em suas obras.

1. R. N. Champlin em seu Comentário exaustivo diz: “Com a idade de doze anos, Jesus, tal como todos os meninos judeus, passou a ser conhecido como ‘filho da lei’, ficando sob a obrigação de observar pessoalmente as ordenanças da lei mosaica. [...] Os períodos distintos da infância, segundo os judeus, eram os seguintes: 1. Aos três anos ocorria o desmame, e pela primeira vez era permitido o uso de vestes com borlas, segundo é estipulado em Núm. 15:38-41. Era então que começava a educação da criança. 2. Aos cinco a criança começava a aprender a lei mediante o ensino catequético, na escola. 3. Aos doze o menino se tornava diretamente responsável pela obediência à lei, incluindo suas ordenanças e festividades prescritas. 4. Aos treze, o menino começava a usar as filactérias em suas orações diárias. Posteriormente, foram estabelecidos mais dois períodos distintos: 5. Aos dez anos o menino podia começar a estudar a Mishnah, o conjunto de interpretações tradicionais da lei; e 6. Aos dezoito anos, podia iniciar o estudo da Gemara, que era a coletânea mais ampla das declarações e lendas judaicas. Estas duas últimas obras é que compunham o Talmude, nome esse que significa ‘erudição ou doutrina’.”

2. “...os meninos - como também as meninas - na Palestina são muito mais maduros aos doze anos de idade do que na Europa do norte ou no Ocidente”. Charles L. Childers – Comentário Beacon Lucas

3. Em seu Comentário Judaico do Novo Testamento, David Stern diz: “Esse incidente durante os “anos de silêncio" de Yeshua (veja 2:52N) tomou lugar próximo à idade na qual um garoto judeu hoje celebra o seu bar-mitzvah e torna-se um “filho do mandamento", pessoalmente responsável em guardar a Torá dada por Deus a Moisés no monte Sinai. Neste tempo ele é t’fillin pela primeira vez oficialmente (veja Mt 23:5N), e pela primeira vez ele recebe a aliyah (um chamado) para a bimah (púlpito) e ler a Sefer-Torá (o rolo da Torá) numa reunião da sinagoga. Os vv. 46-47 sugerem uma celebração semelhante para Yeshua, mas a semelhança encerra-se aqui. O bar-mitzvah não se tornou um evento cerimonial comum na vida judaica até a Idade Média, e somente nos tempos modernos tornou-se foco de celebrações grandiosas. Além disso, a idade para o bar-mitzvah não é 12, mas 13 anos. [...] 46-47 Fazendo perguntas... suas respostas. Estas perguntas (ou sh'ellot) (veja Mt 22:23N) não se tratavam de mera curiosidade de um menino, mas de um diálogo, já que o próprio Yeshua respondia também com perguntas. Assim, havia um intercâmbio intelectual real em andamento, e os ouvintes ficavam admirados sobre como esse menino de 12 anos podia sair-se tão bem.”