Criou-se
no Brasil uma cultura estranhíssima à Bíblia, que busca de forma
errada, ensinar os filhos nos caminhos do Senhor. Ensinar é bíblico (Pv
22.6; Ef 6.4), mas o resultado efetivo dessa orientação divina e bíblica
só será possível se o real sentido das Escrituras for transmitido. Do
contrário, engrossaremos os números de pessoas doentes e vivendo a sua
própria vontade, longe da égide do Senhor e de Sua Palavra.
São
crianças (no sentido restrito mesmo!) que por N motivos, os pais
procuram fazer delas ministros e pregadores da Palavra de Deus (alguns
até levam a alcunha de missionários, profetas...), mesmo que para isso, a
etapa natural da vida dos infantes tenha que ser sacrificada em prol de
“um bem maior e mais elevado”.
Mas o que será que a Bíblia diz
sobre isso? Ela cala, é explícita sobre o assunto ou revela indícios do
sim ou não do fato em questão?
Muitos usam de forma exaustiva o
ocorrido entre o SENHOR e Jeremias quando em seu chamamento para o
ministério profético (Jr 1.4-10) e também o ocorrido com Jesus, quando
Ele ficou em Jerusalém após a Páscoa e foi encontrado por seus pais no
templo, assentado, ouvindo e interrogando os doutores da Lei. Lc 2.41-52
Mas – e infelizmente – o que temos visto não é o operar efetivo
do Espírito do Senhor, mas cópias quase que idênticas do que vemos por
aí em alguns “pregadores”. São fruto de pura osmose, onde o que ocorre
não passa de imitação. Seja no falar, no vestir, no agir, nos jargões...
Dúvidas que pairam e precisam de honestas respostas:
-
Se o apoio a isso é o fato de Jeremias ter dito que era uma criança,
esses pais irresponsáveis sabem o que quer dizer criança dentro do
contexto em que foi dito?
- Se o apoio a isso é o fato de Jesus
com doze anos estar discutindo a Lei com os doutores, por que os
pregadores insistem em ser cópias de adultos e não eles mesmos como
Jesus o fora, sem imitar ninguém? Será que esses pais irresponsáveis
sabem o que quer dizer um menino com 12 anos dentro do contexto em que
foi registrado?
Ensinemos sim as crianças, nossos
filhos no e para o temor do Senhor, mas dentro do mundo delas, não do
nosso. Que elas aproveitem a fase própria delas e não a nossa.
E
que aprendamos de uma vez por todas que quem ESCOLHE, SEPARA e DESIGNA
alguém para o ofício que for na obra de Deus é Ele próprio, não os pais
ou quem quer que seja. Aceitemos isso CALADOS e SUBMISSOS!!!
Que
o SENHOR nos dê sabedoria para vivermos nesse mundo que cada dia mais
se afunda em achismos e conveniências egoístas sob pretexto de piedade
e/ou espiritualidade!!!
No Criador de todas as coisas,
Ir. Márcio da Cruz
Sobre isso na vida de Jeremias, vamos ver o que nos mostram alguns comentaristas em suas obras.
1. “Jeremias
tentou fugir da obediência ao chamado de Deus em sua vida protestando:
“eis que não sei falar, porque não passo de uma criança” (na'ar, Jr
1.6). A mocidade, pensava ele, desqualificava-o para o serviço público,
especialmente em uma sociedade que dava preferência à sagacidade dos
anciões.” Victor Hamilton - Dicionário Internacional de Teologia e
Exegese do AT vol. 03
2. Podia ser um militar, um escudeiro, um
servo, homem casadouro enquanto solteiro. William L. Holladay - LÉXICO
Hebraico e Aramaico do Antigo Testamento
3. Sobre Jr 1.6, a Bíblia
Shedd em sua nota de rodapé diz: “Criança, heb na'ar, que pode
significar qualquer pessoa desde três meses até quarenta anos de idade.
Jeremias tinha cerca de 24 anos quando iniciou seu ministério profético.
A LXX traduz por "demasiado novo".”
Sobre isso na vida de Jesus, vamos ver o que também nos mostram alguns comentaristas em suas obras.
1. R. N. Champlin
em seu Comentário exaustivo diz: “Com a idade de doze anos, Jesus, tal
como todos os meninos judeus, passou a ser conhecido como ‘filho da
lei’, ficando sob a obrigação de observar pessoalmente as ordenanças da
lei mosaica. [...] Os períodos distintos da infância, segundo os judeus,
eram os seguintes: 1. Aos três anos ocorria o desmame, e pela primeira
vez era permitido o uso de vestes com borlas, segundo é estipulado em
Núm. 15:38-41. Era então que começava a educação da criança. 2. Aos
cinco a criança começava a aprender a lei mediante o ensino catequético,
na escola. 3. Aos doze o menino se tornava diretamente responsável pela
obediência à lei, incluindo suas ordenanças e festividades prescritas.
4. Aos treze, o menino começava a usar as filactérias em suas orações
diárias. Posteriormente, foram estabelecidos mais dois períodos
distintos: 5. Aos dez anos o menino podia começar a estudar a Mishnah, o
conjunto de interpretações tradicionais da lei; e 6. Aos dezoito anos,
podia iniciar o estudo da Gemara, que era a coletânea mais ampla das
declarações e lendas judaicas. Estas duas últimas obras é que compunham o
Talmude, nome esse que significa ‘erudição ou doutrina’.”
2. “...os
meninos - como também as meninas - na Palestina são muito mais maduros
aos doze anos de idade do que na Europa do norte ou no Ocidente”.
Charles L. Childers – Comentário Beacon Lucas
3. Em seu Comentário
Judaico do Novo Testamento, David Stern diz: “Esse incidente durante os “anos de
silêncio" de Yeshua (veja 2:52N) tomou lugar próximo à idade na qual um
garoto judeu hoje celebra o seu bar-mitzvah e torna-se um “filho do
mandamento", pessoalmente responsável em guardar a Torá dada por Deus a
Moisés no monte Sinai. Neste tempo ele é t’fillin pela primeira vez
oficialmente (veja Mt 23:5N), e pela primeira vez ele recebe a aliyah
(um chamado) para a bimah (púlpito) e ler a Sefer-Torá (o rolo da Torá)
numa reunião da sinagoga. Os vv. 46-47 sugerem uma celebração semelhante
para Yeshua, mas a semelhança encerra-se aqui. O bar-mitzvah não se
tornou um evento cerimonial comum na vida judaica até a Idade Média, e
somente nos tempos modernos tornou-se foco de celebrações grandiosas.
Além disso, a idade para o bar-mitzvah não é 12, mas 13 anos. [...]
46-47 Fazendo perguntas... suas respostas. Estas perguntas (ou sh'ellot)
(veja Mt 22:23N) não se tratavam de mera curiosidade de um menino, mas
de um diálogo, já que o próprio Yeshua respondia também com perguntas.
Assim, havia um intercâmbio intelectual real em andamento, e os ouvintes
ficavam admirados sobre como esse menino de 12 anos podia sair-se tão
bem.”